Come oque te dou.



A teologia da prossperidade, que tem infestado igrejas evangélicas como praga urbana aumenta a cada dia. Como ela fica diante de Ezequiel 2:5, onde Deus manda o profeta preparar seu pão no cocô?

Ezequiel 2:5 – “Mas tu, ó filho do homem, ouve o que eu te digo, não sejas rebelde como a casa rebelde: abre a tua boca, e come o que eu te dou”.

Ezequiel e suas visões deram impulso dinâmico á formulação do judaísmo. O exílio significava ruptura com o passado tribal, e 10 tribos já haviam desaparecido. Ezequiel foi um homem usado para mudar a mentalidade das pessoas. A partir de Ezequiel, entendemos Deus como o Deus de toda a terra, e não como o Deus da Palestina. O que entendemos hoje como Deus onipresente foi graças a Ezequiel. Também ele esclareceu que Deus não punia coletivamente pelo pecado de um líder, ou geração pelas faltas dos seus antepassados, como até ali se pensava. Ezequiel mostra que o pensamento do povo estava obsoleto diante da realidade que eles teriam que enfrentar muito em breve. “Como vai ser quando não houver templo?” “Quem vai realizar os sacrifícios pelo pecador, e como?” A partir de Ezequiel a responsabilidade individual passou a ser a essência do judaísmo. Não que ela não estivesse presente na Lei: Deus criou o homem e a mulher, a idéia do indivíduo sempre esteve presente ali. Ezequiel adaptou a teologia a nova realidade. 

O que profetas como Jeremias e Ezequiel fizeram foi reconhecer que a sociedade de sua época não funcionava mais segundo os moldes "democráticos" tribais, onde tudo era comum ou coletivo, onde as ações, más ou boas, influenciavam no conjunto da sociedade e da nação.

Veja, Israel era um homem, tornou-se uma tribo, depois, uma nação e a teologia continuava a mesma. Teologia não é Deus. Deus não muda. Teologia é o discurso sobre Deus, o entendimento sobre ele. Por meio das visões, Deus mudou o pensamento dos profetas, e estes passaram á seus conterrâneos oque viram e entenderam.

A sociedade monárquica estava altamente estratificada em classes sociais. E apoiavam-se os responsáveis pelas desgraças, a que uma política desastrosa levara a nação, em uma noção arcaica e desatualizada, como meio fácil de se eximirem dos crimes praticados. No final das contas, o oprimido é que se sentia culpado pelos crimes do opressor.

Isto servia também à classe dominante para manter as estruturas  falsas do culto nacional, usado há muito como meio oficial de controle da divindade e como mascaramento piedoso, frente às camadas populares, das espoliações às quais a população estava submetida.

Portanto, ao afirmar a validade da responsabilidade individual, Jeremias e Ezequiel estão "puxando o tapete" ideológico pisado pela classe dominante de sua época. E não afirmando uma ética individualista e intimista e muito menos construindo um suporte ideológico religioso para as falcatruas das atuais classes dominantes. Eles estavam desestruturando o sistema de governo de sua época.

Um dia,Deus disse a Ezequiel para cozinhar e comer sua comida sobre cocô. O profeta, horrorizado, argumentou com Deus que, sendo ele santo, não podia comer au tocar limentos imundos. A resposta de Deus parece piada de mau gosto.
"Não,Ezequiel, você não vai cozinhar com cocô humano, mas com esterco."

Servos de Deus, tem que estar preparados  para a possibilidade de se tornar uma parábola  — tudo isso para chamar a atenção da consciência dos perdidos.

"Em bolinhos... é que comerão os filhos de Israel o seu pão imundo, entre as nações para onde eu os lançarei..."
Ezequiel entendeu que era exatamente aquilo mesmo que ele ha via dito. Quando Deus oferece um banquete, todos queremos nos assentar á mesa. Mas e quando o banquete é pão com esterco? Tão diferente do discurso de prosperidade pregado hoje pelas alcatéias sacerdotais.

O Prato do dia: Tribulações ao molho madeira.

Ezequiel é um golpe na teologia da prosperidade. Nosso tesouro está no céu, não na terra. O evangelho da prosperidade faz pessoas louvarem a prosperidade. Quem não gostaria de ter um Jesus que dá carro, casamento, casa, saúde, boa vida, uma ferrari (basiquinha) de ouro? Mas eu e você sabemos que não precisamos de Jesus para ter coisas. Porque muita gente tem muitas coisas e não está louvando a Deus  afinal, oque conseguiram foi fruto de seu trabalho. Cristianismo não é pra ter boa vida.  Quer boa vida? Vai passar um final de semana no Club Med, não na igreja. Tem gente que busca o evangelho para ter boa vida e em gente que ministra o evangelho para quem busca boa vida. Eles que se entendam. Quando o  castelinho de areia for derrubado eles verão que sua fé estava em miragens no deserto ilusões. 

 O apóstolo Paulo diz: “se temos esperado em Cristo somente para esta vida, somos os mais dignos de piedade”. Um cristianismo mentiroso prega tesouros na terra, mas o cristianismo verdadeiro fala de tesouros no céu. Não que seja ruim ter coisas, ou se aproximar de Deus para pedir coisas, afinal, Deus presenteador daquele que o busca, mas o cristão de verdade se aproxima de Deus para dar, não para receber. Acontece que o altruísmo não está na moda.

Como pode uma vida cristã ser melhor do que viver acomodado á sociedade e seus valores mundanos? Qual a vantagem de ser cristão? Quando Jesus disse: “no mundo tereis tribulações”, era uma promessa. Mas Ele não queria desanimar ninguém. As tribulações fazem parte da vida. Nem todo problema é maldição. Nem toda crise é diabólica e também você não pode achar que todo sofrimento é prova. Muitas vezes, são circunstâncias da vida. Circunstâncias as quais você está sujeito. Mas a Bíblia diz para louvarmos a Deusnas tribulações, e não pelas tribulações. Por servir a Deus, neste mundo você não pode esperar boa vida. Mas pode achar contentamento em Deus. E a verdade.


O prato do dia: problemas financeiros com gergelim
O movimento da prosperidade  deprecia a Cristo fazendo-O menos central e menos satisfatório que suas dádivas. Cristo não é mais exaltado por ser o provedor de riquezas. Ele é mais exaltado por satisfazer a alma daqueles que se sacrificam para amar os outros no ministério do evangelho.
Quando  Cristo é apenas aquele que nos torna ricos, nós glorificamos as riquezas.  Cristo se torna um meio para o fim que realmente queremos — a saber, saúde, riqueza e prosperidade. Mas quando recomendamos Cristo como aquele que satisfaz nossa alma em qualquer circusntância — mesmo quando não há saúde, riqueza e prosperidade — então Cristo é exaltado como mais precioso que todos aquelas dádivas.

Vemos isso em Filipenses 1:20-21. Paulo diz: “É minha ardente expectativa e esperança de que [...] será Cristo engrandecido no meu corpo, quer pela vida, quer pela morte. Porquanto, para mim, o viver é Cristo, e o morrer é lucro.” Porque morrer significa “partir e estar com Cristo” (Filipenses 1:23). Este entendimento falta na pregação da prosperidade. O Novo Testamento aponta para a glória de Cristo, não para a glória de Seus presentes. Para deixar isso claro, ele coloca toda a vida cristã abaixo do estandarte da alegre abnegação. “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me” (Marcos 8:34). “Estou crucificado com Cristo” (Gálatas 2:19). Todos estes versículos foram excomungados da Teologia da prosperidade.

A abnegação pode ser uma estrada difícil que leva à vida (Mateus 7:14), e a mais alegre de todas as estradas. “O reino dos céus é semelhante a um tesouro oculto no campo, o qual certo homem, tendo-o achado, escondeu. E, transbordante de alegria, vai, vende tudo o que tem e compra aquele campo” (Mateus 13:44). Jesus torna todas as outras posses facilmente dispensáveis.  A graça de ser alegre na perda de prosperidade — este é o milagre que os pregadores da prosperidade deveriam buscar. Este seria o sal da terra e a luz do mundo. Isto exaltaria a Cristo como extremamente valioso.

O prato do dia: frustração à cavalo
 Atualmente, você liga o rádio e oque você ouve como tema das canções? Milagres. Promessas. Aquilo que Deus pode fazer por você. Culto centrado na vontade do homem. Os pastores são constrangidos a pregar uma palavra que satisfaça sua alma, eles tem que dar oque você quer ouvir. Os músicos tem que cantar um louvor que você conheça. Mas você só conhece oque toca na rádio. Deus é “pop”? Oque Deus tem a ver com a indústria fonográfica, como comércio? Onde ficam os salmos, hinos e cânticos espirituais citados em Efesios 5:19-19? Isto não toca na rádio. Os cânticos que Deus põe na boca do ministro de louvor? O que sai do coração de Deus não basta para você? Uma pregação que saia da boca de Deus não basta para você? Se Deus não der uma palavra do tipo: “você vai ter oque quiser, todas as promessas vão se cumprir, as bênçãos te alcançarão”, você vai gostar? A Bíblia diz:” Agrada-te do Senhor e Ele realizará os desejos do teu coração”, mas estamos perventendo a palavra de Deus, vivendo o  “Agrada-te dos desejos do seu coração e o Senhor te realizará”.
Você pode pensar: “mas estou com problemas sérios, Deus não vê”? Vê, sim. Mas como a visão dele é muito maior que a sua, Ele vê um filho cheio de problemas, num mundo em crise. Se o mundo está em crise, não é privilégio seu ter problemas. A diferença entre você e o resto do mundo é que você tem capacidade para resolver-los , e o resto do mundo não está perdido. Então Deus olha pra você, o solucionador de problemas da sua área, e pensa: oque meu filho está fazendo? E vê você desesperado.

Estamos agindo como naquela piada, onde há um assalto, o trombadinha joga dois homens no chão. Aí um grita: “Socorro, polícia”, e o outro diz: “mas você é a polícia”. Imagina se no meio do tiroteio, o policial se desespera e sai: “corre, corre, tiroteio, aaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhhhh”.- mas é exatamente oque estamos fazendo.

Ezequiel era sacerdote no templo. Seu chamado foi frustrado. Mas por causa disso fomos abençoados.  Davi teve sonhos frustrados. José , por um tempo, foi frustrado. Oque estes homens tem em comum? Não estavam olhando para bênçãos, senão não teriam suportado. Não estavam buscando milagres. Jó disse em momento de muita aflição: “Eu sei que meu Redentor vive” – porque estava contemplando a vida espiritual, do contrário não teria suportado a provação. E você, como tem reagido diante da frustração? Daquele problema que não se resolve?

O prato do dia: oque sai do homem
Os profetas usavam cinco palavras para ídolos, uma delas  GILLUL, palavra pejorativa para ídolos. Vem da raiz de Gilgal, roda, círculo, bola, e tinha o sentido de bola de cocô. Ezequiel usava freqüentemente este termo. Em Ez 4:12, Deus diz: “esterco que sai do homem”, oque sai do homem é cocô, os ídolos saem do homem, logo, são cocô. Isaías também ridiculariza ídolos: ele diz que o homem corta a lenha, metade é pra fazer fogueira, metade para construção de um ídolo. Ooh, que poder.

  Você pode achar nojento, mas muita gente naquela época as pessoas estavam comendo cocô e arrotando cereja. E ainda hoje assim estão. E o hálito dessas pessoas é horrível, elas fedem.

Ezequiel comeu 365 dias o pão com esterco. Mas havia um problema inicial que gerou a ordem de Deus com relação ao “pão com esterco”. Idolatria. O povo estava adorando outros deuses dentro do templo de Deus, e isto era abominação. 
Hoje tem um ídolo se instalando no culto novamente: as promessas. A idolatria é algo que sai do homem, tal e qual o cocô. Estamos fazendo o culto, cânticos, campanhas, pregação, livros, e congressos centrados em promessas. Toda nossa vida está girando em torno de promessas. ‘Por ela, por meio dela, para ela” vivemos. Quantas vezes você já ouviu que tem que adequar sua vida á promessa? Andar segundo a promessa? Não é mais andar segundo o Espírito? E “eu tenho a marca da promessa”. Não é mais “A marca de Cristo”? Estamos valorizando as coisas materiais no lugar das espirituais. Se você perdeu a paz ou a felicidade, frutos do Espírito, por causa da promessa, querido, você está na categoria dos idólatras. Porque a salvação é uma promessa, e eu não vejo por aí ninguém angustiado pela salvação. A vinda de Jesus é promessa , e não vejo ninguém angustiado com isso. Porque as promessa de Deus trazem paz. Mas a partir do momento que você torna estas coisas objeto de idolatria, você perde a paz. Você mata os frutos do Espírito em sua vida e começa a gerar frutos da carne, e carne só gera morte e pecado. E a promessa era de Deus. Queridos, o Deus de promessas não é o Deus da cruz. Não são a mesma pessoa, mas ambos estão no altar da casa de Deus.

Banquete à vista.
Não se deixe levar pelo medo, Deus não te deu espírito de medo. Seja corajoso até o final.
Deguste suas derrotas como um prato raro e requintado, pois a poucos Deus dá desta forma. Isto é só para quem suporta. Para aqueles, que como Paulo, podem dizer: ”tudo suporto naquele que me fortalece”.
Quantos dias você está comendo este prato estranho? Você pode estar comendo pão de sofrimento, de angústia, mas está na mesa do rei. Ezequias não quis comer, foi desonrado. Ezequiel comeu e viu a glória de Deus, viu o rio que saía do trono fluir e foi levado por ele. Quando as águas do rio passarem por você, elas vão transformar muito mais do que você imagina. Mas você precisa focar seus olhos nas promessas espirituais, relativas a coisas espirituais. Olha para Deus, ache seu contentamento em Deus.
Te convido hoje, se o Espírito falou ao seu coração que a promessa que Deus fez a você se tornou idolatria, se ele mostrou que você edificou um altar para a promessa, convido você  a abrir mão da promessa. Porque o que Deus prometeu era glorioso, sem dúvida, mas foi contaminado, agora é abominação. Sem medo, abra mão. Espere em Cristo uma nova direção. Não tenha medo de frustrações.

Porque em Cristo, até quando você perde, você ganha; até quando você erra você acerta; até quando você quebra, você conserta, porque o vaso quebra na mão do oleiro.

Em Cristo, 
Lya Alves
(19/11/2010)