O tempo de cantar chega - Capítulo1: Mar Morto

Mar Morto

O SENHOR é bom para todos, e as suas misericórdias são sobre todas as suas obras. (Salmos 145:9)

Eu raramente como laranjas, porque também não gosto de todas as frutas e as laranjas para mim são especialmente complicadas, trabalhosas, cheias de fiapos. Fiapo por fiapo, prefiro uma manga docinha. Você já viu uma laranja espremida. Sei disso. Primeiro ela é cortada ao meio. Depois é espremida. Às vezes a vida da gente é como uma laranja. Há tempo de colher, tempo de partir e tempo de ser espremido. Você pode se perguntar porque há tempo de ser espremido. Deus não deseja seu mal. Ele não é um sádico. Mas você e eu sabemos que as vezes por conta da ação de Deus em nossas vidas ficamos ‘no bagaço”. Isto ocorre porque, assim como nós queremos o suco da laranja, Deus também quer o suco que sai de seu coração, o sabor de um suco doce como mel. E é este suco que você tem em mãos agora. Saboreie, pois ele é fruto de uma seqüência de temporadas muito difíceis em minha vida.

Estive casada por três anos com um alcoólatra e isto significa que eu tinha um kit de problemas típicos que os parentes dos alcoólatras precisam se acostumar: depressão, tristeza, amargura, desânimo, responsabilidades extras, aborrecimentos inesperados, vergonha pública constante, afastamento da vida social e outras coisas. E tudo em dobro. Não é apenas sua depressão, é a sua e da outra pessoa. Não é apenas o vexame dele: é seu também. Tudo vem em dobro e você passa a carregar um peso que, decerto não é seu.

Acontece que este alcoólatra era alguém que eu amava. Com todos os problemas, eu o amava. Quando ele ficava internado no hospital por causa da bebida, eu o amava. Quando ele voltava para casa e se enchia de cachaça, eu o amava. Quando ele tentava me bater, ou ameaçava me matar, eu ainda o amava.
E esta pessoa muito querida optou por morrer. Digo “optou” porque ele teve escolha. Ele não quis fazer tratamentos, não queria ir à reunião do Al-Anon, não queria ir a igreja buscar auxílio espiritual, também não queria conversar com psicólogos. Quando eu disse que ele deveria optar entre eu e a bebida, ele optou pela bebida. Eu não o culpo, e não estou escrevendo sobre ele. Não vou entrar na questão da dependência química: eu vivi isto como esposa, não como alcoólatra.

Mas naquele dia eu também fiz minha opção: eu decidi viver. Eu decidi que apesar das circunstâncias serem terríveis, eu seria uma pessoa feliz. E assim, eu aprendi que a alegria vem e vai, mas a felicidade permanece. É como o mar: ele sempre está lá. Às vezes, lança ondas gigantescas, às vezes, a maré está cheia ou baixa, isto não altera a sua essência. 

Então percebi que nosso coração é um território semelhante a esta analogia. O campo emocional tem ondas grandes, ondas pequenas, ondas que quebram na beira da praia, ondas que quebram muito antes do meio da orla, como as águas de Cabo Frio, no Rio de Janeiro. Há Tsunamis em nosso coração, há tempestades que se levantam neste alto-mar, mas ele permanece o mesmo.
Não podemos deixar esta inconstância nos levar. Mesmo que tenhamos motivos. Nós somos o capitão do navio. O leme, que é o controle, está em nossas mãos. Se perdermos o controle e simplesmente deixarmos a tempestade emocional nos levar, morreremos afogados no Mar da Depressão.

Era deprimente para mim ouvir meu marido vomitar aos urros como um animal e assustar toda a vizinhança. As criançinhas morriam de medo daquele homem de pele esverdeada e olhos amarelos que urrava como um monstro à noite.

Era deprimente para mim ter que sustentar um bêbado, e também vê-lo espantar minhas clientes. Certa vez, duas moças donas de uma loja vieram me encomendar um lote de bolsas que eu confeccionava, e ele as expulsou dizendo que eu era doente e não podia me comprometer com nenhum trabalho porque quando não tomava meus remédios controlados, eu surtava. Eu não tomava remédio algum, claro. Ele estava bêbado e me fez perder um grande trabalho.

Depois desta temporada, ainda houve mais tempos difíceis em circunstâncias variadas, como pessoas que não entendiam como eu podia sofrer com a morte do meu marido, considerando que eu estava livre de um fardo muito pesado, e me criticaram muito severamente por isso.

Jesus acalma as tempestades. Não importa se você está no Mar Morto, no Pacífico, no Atlântico, ou na Praia de Icaraí. Ele ainda está no barco com você. Você não está sozinho. Eu suportei estas coisas porque sabia que não estava sozinha.

Ele acalmará sua tempestade. Quando eu não suportava mais, Ele sempre dizia: ”vai passar”. Eu não via como sair de um oceano de complicações, e de fato, não dava para sair da noite para o dia. Há situações que não se resolvem da noite para o dia.

Lembro-me quando eu era adolescente e comecei a ter crises de convulsão. O médico me receitou Haldol, um medicamento que deveria ser ministrado em momentos de crise, porém, não suspendeu esta medicação e eu continuei tomando por mais de um ano aquela mesma dose. Eu era uma excelente aluna, mas perdi o ano na escola, perdi a vontade de viver, perdia a alegria que um adolescente tem, engordei, vivia deprimida, sempre pensava se minha mãe ia morrer (embora ela não estivesse doente) e este pensamento me afundava cada vez mais. Pensava que se eu morresse, talvez fosse melhor do que viver daquele jeito. Na minha família já houve casos de suicídio, então, a morte me parecia uma alternativa familiar, embora eu não contasse isto a ninguém.

Ninguém percebia que eu estava com depressão. Todos apenas me diziam como eu estava muito gorda numa época em que as meninas costumam ser magras. Diziam que eu dormia demais e não fazia nada. Diziam que eu era “lerda”. Esta palavra vem do fundo do inferno. Para mim, é uma palavra impronunciável. Creio que o diabo deve gostar de dizer às pessoas que estão com depressão que elas são “lerdas”. Na época, eu preferia que arrancassem minhas unhas com alicate do que ouvir alguém me chamando de assim. Meu estado de espírito era ruim ou insuportável. Bastava uma palavra contrária e eu me sentia no fundo do poço, meu dia acabava, e às vezes, a semana também.

Porém, algo me dizia que aquela tristeza não pertencia a mim. Era como se eu estivesse como expectadora de mim mesma e observasse aquela situação. Então, decidi parar com aquela medicação por minha conta própria. Retornei ao neurologista, ele perguntou se eu estava tomando o remédio, eu disse que sim, e ele me deu mais uma folhinha azul com a receita para três vidros do Haldol. Ele disse que eu ia tomar aquela medicação a vida inteira e que não era tão ruim ser escrava de remédios. 
Eu troquei de médico.

Na época, eu não conhecia o Médico dos Médicos, o Senhor dos Senhores, meu melhor amigo, Jesus, o bom pastor. Mas Ele já me conhecia antes que eu fosse formada no ventre de minha mãe. E sei que ele estava comigo nesta decisão, afinal, a depressão foi embora. Mais adiante fui a uma outra neurologista que me disse que eu nunca ficaria curada. E que o remédio para as convulsões não era tão forte assim. Continuei tomando os remédios.

Quando me converti, aos vinte e seis anos, retornei a esta médica e ao ver o resultado da minha tomografia e do eletro, ela disse que eu estava curada. Eu perguntei:
“Como assim?”
“Você não tem nada”.
“Mas eu não ia ter convulsão a vida inteira?”
“Você já está há mais de um ano sem vir aqui, há mais de um ano sem tomar remédios, se você não estivesse curada, já teria apresentado alguma crise neste período. Além disso, o eletro me diz que está tudo funcionando bem”.

Eu fui curada. Da depressão, das crises de ausência (ou das convulsões) e de muitas outras enfermidades emocionais, sem contar o milagre operado na mesa de cirurgia, com uma operação que Deus cancelou na última hora, quando o médico abriu minha barriga aos nove anos de idade e não achou mais nada para operar.

Você não foi criado para ser uma pessoa triste, nem para se afogar na tristeza. Não é esse o plano de Deus para sua vida.

Problemas vêm e vão. A Alegria vem e vai. Tudo tem o seu tempo determinado e seu propósito debaixo do céu. Mas não está escrito, nem nas estrelas, que você será infeliz o resto de sua vida.

Aprendi esta lição fantástica. Eu posso ser feliz. Hoje sei que o choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã. E mesmo que esta noite seja longa, o dia sempre amanhece, e a alegria sempre vem. Embora seus sentimentos tentem te mostrar que não existe amanhã, que não existe futuro e que a perspectiva de felicidade é algo inatingível. A depressão tenta manter seus olhos no “aqui e agora” para te derrubar ainda hoje, se possível. Mas há um tesouro preparado por Deus para você.

“Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus e não de nós. Em tudo somos atribulados, mas não angustiados; perplexos, mas não desanimados; perseguidos, mas não desamparados; abatidos, mas não destruídos”. (II Coríntios 4:7-9)

Ainda que você precise atravessar o verão, o outono e o inverno, a primavera chegará. E com ela, as flores e os melhores frutos, então será seu tempo de cantar.

Este entendimento foi um tesouro para minha vida, porque quando eu descobri que o tempo de cantar chega, descobri também que não precisava esperar a primavera chegar para me alegrar, mas que podia esperar cantando. 

A primavera chegará para você. O mundo não vai acabar num grande dilúvio, nem no grande dilúvio que você está vivendo. Então você não precisa esperar a tempestade passar para ser feliz. Você pode buscar sua felicidade agora mesmo. Comece a cantar. Deixe a alegria invadir seu coração. Permita que o poder de Deus te encha com a alegria que excede o entendimento. 

Quem disse que você precisa de motivos para ser feliz? Se sua alegria vem de Deus, você tem motivos para ser feliz. Se sua alegria vem somente quando as circunstâncias são favoráveis, você não é feliz e precisa admitir isto. Abandone esta alegria falsa e fique com a verdadeira.
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