O tempo de cantar chega - Capítulo 6: Tempo de despertar


6. Tempo de despertar
Aparecem as flores na terra, o tempo de cantar chega, e a voz da rola ouve-se em nossa terra. (Cânticos 2:12)

Deus trabalha com sinais para nos orientar. Por isso, devemos estar atentos aos sinais. O canto dos pássaros é o sinal de um novo dia, é o sinal de que amanheceu, é tempo de despertar.

Não podemos estar surdos à voz dos pássaros. Precisamos despertar. Espiritualmente, emocionalmente, e fisicamente. Isso significa que talvez você não esteja vendo as coisas como deveria ver. Aquilo que você chama de adversidade, Deus chama de “oportunidade maravilhosa”. Ou talvez você não esteja vendo o mover de Deus na sua vida porque o diabo está fazendo você olhar para outro lado. Quando Jesus mandou Pedro lançar as redes para a direita, também queria que Pedro olhasse para a direita.

Quando eu era jovem, morei muito tempo com minha avó. Morar com minha mãe era impossível porque meu padrasto era um homem muito agressivo e por mais que eu amasse minha mãe, não queria estar exposta a violência dele.

Minha avó era na época a sacerdotisa da família inteira. Atendia, dava "passes", aconselhava pessoas quando estava incorporada com seus "guias espirituais" e era muito respeitada. Mas fora desses momentos ilustres, o comportamento dela era bem estranho. Eu poderia citar um milhão de situações, mas vou citar as apenas mais emblemáticas e que tem a ver com o livro porque quero que você entenda que há luz no fim do túnel e quero você entenda também que naquela época minha avó era minha melhor amiga. Ela era a Bela e a Fera; a Branca de Neve e a Bruxa Má no mesmo dia. 

Quando eu era criança, não havia tanta informação disponível quanto há hoje. E naquele tempo dizer que alguem tinha problemas mentais era considerado uma ofensa. Não lembro de ter ouvido falar de personalidade bipolar na infãncia, nem de transtorno Borderline. Ha quem chame o transtorno borderline de "transtorno do amor", e essa é a forma mais carinhosa que posso pensar em falar da minha avó, mas a maioria define como estado limite entre o neurótico e o quase psicótico. Os borders tem hiperatividade emocional, são sempre intensos mas costumam lidar mal com a adversidade, rejeição, desaprovação e abandono. Quando se deparam com este tipo de situação, é desencadeada uma reação violenta, no limite das emoções. e isto resume minha vida com minha avó: amor, fúria, ódio e pedidos de desculpas. Ela era um vulcão sempre em erupção. Sorte minha quando era queria ser a melhor avó do mundo: ela conseguia. Mas quando estava nos dias de bruxa má, era invencível. O abandono é algo que os borders não sabem como lidar. E ausência é interpretada como abandono. Meu avô trabalhava em um local distante e só voltava aos finais de semana e ela se sentia abandonada. Gostaria que ela tivesse encontrado um médico que a tratasse adequadamente e nos ensinasse a conviver com ela, mas enfim, ela não encontrou. No Brasil não há muitos médicos especializados neste transtorno, de modo que é difícil conseguir um diagnóstico. Apesar de ela ter todos os sintomas do Transtorno, nunca foi diagnosticado. Mas não sou psicóloga, é só uma impressão. Uma impressão como ferro em brasa.

Ela tinha manias infinitas. Tudo era sistematicamente realizado e ela repetia pelo menos 5 vezes cada mínima instrução. Certa vez, não satisfeita, colocou papéis por toda a casa: "dê a descarga após usar o vaso", "aperte a pia pra não desperdiçar água", "não deixe louça suja na pia", "desligue a TV", "tranque a porta da sala com o trinco", "dobre os lençois" e por aí as instruções se seguiam. 

Quando comecei a trabalhar, minha primeira providência foi ajudar em casa, porque era muito grata por meus avós cuidarem de mim, embora nos dias maus, ela deixasse claro o quanto isso era um favor pesado pra ela. Então eu enchia a geladeira, e avisava que tudo oque havia comprado era para ser compartilhado. Porém, ela ficava furiosa e arrumava pretextos para para me castigar emocionalmente por trazer alimentos. Acho que ela não queria de fato me castigar, só não sabia como parar o vulcão interno. O Transtorno de personalidade borderline leva a comportamentos de abuso. Uma das formas típicas do abuso entre borders é inverter a nossa realidade para que a deles seja menos dolorida. Uma das formas de fazer isso é projetar sobre nós aquela caracaterística que eles não conseguem enxergar no espelho sem sofrer.E aí, vem a torrente de acusações, mas isto é apenas um mecanismo de defesa. Outro mecanismo de defesa comum e difícil é da tranferência da culpa. Eles se sentem melhores quando nos fazem carregar o fardo do seu  comportamento. Minha avó me culpava por precisar tomar remédios. Mas como ela também semrpe dizia que não dormia nunca, eu sabia que era mentira. 

O pior é que pessoas com desvios escondem seus problemas muito bem e as pessoas que estão a nossa volta nunca conseguem entender que há um problema sério, um vulcão emocional em erupção, um inferno na terra. Mas oque me incomodava mesmo era ela alternar os ataques de fúria com ataques de carinho, como se nada tivesse acontecido.Como uma pessoa diz coisas horríveis pra você e em seguida diz:"vamos ser amigas"? Houve uma época que eu observei a frequência dos ataques e o relógio se tornou meu escape. Meticulosamente, de 45 em 45 minutos ela vinha me agredir verbalmente, todos os dias.

Haviam situações absurdas: eu estava tomando café, e neste dia, a mesa estava muito farta, como um café da manhã de hotel (amo café da manhã de hotel e também amo lanchar em rodoviária). Havia dois tipos de pão, queijo, presunto, café, leite, manteiga, achocolatado, e frutas. Então ela entrou pela cozinha numa ansiedade de tirar o fôlego e disse aos berros: “Precisamos economizar, eu não tenho dinheiro para fazer compras. Eu não tenho mais dinheiro nem para comer!!!” E levou a mão próxima à boca, o mesmo gesto que costumamos fazer para mostrar comida a crianças. Seu gesto me provocou uma forte náusea mal pude continuar o café. Aquela náusea foi uma seta de ansiedade lançada no meu café da manhã. A mesa estava cheia de comida, como ela estava dizendo que não tinha o que comer? Mas essa mania de dizer que não tinha oque comer foi mais a frente. Assim como uma pessoa anoréxica que não cosnegue ver que esta magra, ela não conseguia ver que tinha comida sobrando na casa.

Perguntei: ”O que é isso tudo aqui na mesa? Não é comida?” Então ela sorriu sem jeito e voltou para seu quarto, como se nada tivesse acontecido e eu fiquei ali, perplexa. 

Naquela casa, a comida era um problema. Não porque houvesse escassez. Mas minha avó estava sempre ansiosa e costumava estragar as minhas refeições com palavras amargas, de modo que eu tentava comer escondido dela. Era um caso clássico de violência doméstica, através de palavras, olhares e censuras. Quando havia mais alguém para compartilhar a comida, era um grande suplício. Se pudesse, ela tiraria a comida do prato dos meus amigos.

Eu  sempre perguntava: “Vó, vou tomar café. Vai querer comer?”. Ela respondia que não. Então ia na padaria e como tinha pouco dinheiro, comprava exatamente a quantidade que necessitava para comer. Quando chegava da padaria, perguntava pela 2ª. vez:”vai querer comer?” Ela respondia que não. Preparava o café. Então ela sentava-se à mesa, e sorria cinicamente: “eu não gosto de pão. Na verdade, nem estou com vontade nenhuma, mas vou comer só de olho grande”. Isto significava que eu ia ficar com fome. Na verdade, não era “olho grande”, era apenas uma forma passiva de abuso de autoridade. Eu era obrigada a dar parte do alimento porque estava morando naquela casa “de favor”. Muitas vezes tentei discutir por causa da falta de educação dela sobretudo com meus amigos, mas quando percebi que ela se deleitava em me fazer passar vergonha na frente de outras pessoas, desisti. Ás vezes preferia deixar de comer para o visitante não ser mal recebido nem passar uma situação vexatória.

Pode parecer simples, mas isto ocorria todos os dias, em todas as refeições, assim como todo caso de violência doméstica. Há um caráter de perseguição, assim como no bullying. Era uma opressão que começava no café da manhã e terminava na hora de dormir. E o pior, ela se divertia com isso. Se as explosões de fúria aliviavam seu vulcão interno, debochar de mim parecia ter se tornado seu passatempo favorito com o passar dos anos. Já li que o borderline traz um comportamento sádico e que conviver com eles é um calvário. Se está certo ou errado, não sei, mas era verdade no caso da minha avó.

Certa vez estava em casa e um amigo ligou para um restaurante e fez o pedido de uma pizza gigante. Claro que era para todo mundo. Mas, ao ver a pizza, a senhora se aproximou , esticou o dedo autoritariamente e com uma expressão muito séria no rosto, disse: “Tire uns dois pedaços bem grandes e leve para o meu filho que está no quarto, porque ele vai querer”. Esse “senso de comunhão” e partilha é muito estranho vindo de alguém que não dividia nada com nunguém, pelo contrário, escondia pães debaixo do travesseiro, e biscoitos dentro do armário. Sem falar no xampu, que era guardado a sete chaves dentro da gaveta de calcinhas. A questão não era a alimentação, porque havia comida suficiente para todos. A questão era a necessidade de tirar, subtrair, roubar e roubar algo, nem que fosse o seu prazer de comer. Era como se ela se alimentasse do meu sofrimento, ou pelo menos eu me sentia assim.

Eu sai de casa aos 20 anos e fui morar num pensionato. Morar com as garotas de programa de Icaraí era melhor do que morar com minha avó. Mas nem de longe era o caminho mais seguro. Um dia, tempos depois que me converti, Deus começou a passar a limpo minha vida e eu fui morar com ela novamente. Foi importante porque eu pude entender melhor a situação dela e também tive milhares de oportunidades para liberar perdão. Nesta segunda época, aprendi a liberar o perdão por antecipação e a amar minha avó pelo como ela é, incondicionalmente, mesmo quando ela aprontava. Resolvida essa fase,eu sai da casa dela e começei a ver a prosperidade milagrosa em minha vida, então constatei algo muito importante: que naquele período horrível que vivi com minha avó, na verdade já estava prosperando. Porém, a estratégia do diabo era consumir não apenas a provisão financeira, mas também a provisão de alegria. E o pior: estava me roubando o testemunho!

Estou tentando dizer-lhe que eu não via que já estava prosperando porque o diabo usava minha avó para cegar meus olhos. Eu não conseguia ver oque Deus estava fazendo. Os pássaros já estavam cantando para anunciar um novo tempo, mas o diabo vinha como uma nuvem de moscas com seu barulho infernal e bloqueava o som de Deus, o som da primavera. 

Talvez você não esteja ouvindo o som da primavera e a canção do Espírito porque o diabo está usando alguém para tapar seus ouvidos.

A violência tem várias formas, seja no trabalho, em casa, na escola, e pode ser dissimulada ou não. A vítima é induzida a se sentir culpada por ficar com raiva do agressor. Este sentimento de culpa gera confusão e aprisiona a sua mente de tal forma que a pessoa chega a achar que ela é aquilo que o agressor diz que ela é. A violência doméstica é devastadora, aniquila a personalidade das pessoas, e destrói vidas. “Mas para estas coisas se manifestou o Filho de Deus, para desfazer as obras do diabo”. e uma das formas de desfazer as obras do diabo é perdoando. Eu liberei perdão sobre a vida da minha avó: não quero mantê-la cativa da minha falta de perdão. Perdoar pecados é sobrenatural. Jesus deu aos discipulos o poder de perdoar pecados,veja: 

"Se perdoarem os pecados de alguém, estarão perdoados; se não os perdoarem, não estarão perdoados".
João 20:23

Quando perdoamos alguém, liberamos estas pessoas com Deus. Se não houver ofensa, não há oque perdoar. Por exemplo, se alguém rouba você, e a polícia pega o ladrão em flagrante, pode prender a pessoa na hora. Mas se você disse que não foi um roubo, então não há crime. Se você perdoa, libera a pessoa da dívida. Libera não apenas o perdão, mas o Espírito Santo na vida dessa pessoa. Liberar perdão é uma forma eficaz de liberar a ação do Espírito Santo na vida de alguém, é preparar o caminho Senhor na vida dessa pessoa.

“Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do SENHOR; endireitai no ermo vereda a nosso Deus. Todo vale será aterrado, e nivelados, todos os montes e outeiros; o que é tortuoso será retificado, e os lugares escabrosos, aplanados. A glória do SENHOR se manifestará, e toda a carne a verá, pois a boca do SENHOR o disse.” (Isaías 40.3-5)

Uma das coisas que aprendi com a convivência com minha avó foi que eu não sou uma vítima. eu sou filha de Deus, autor e consumador da minha fé. Você é quem Deus diz que você é; Filho Dele.Você não deve carregar o peso de culpa por ter sofrido agressões, nem deve ficar se lamentando ou lambendo feridas. Você não é vítima de circunstâncias. Não acredite quando disserem que você não tem jeito, ou ninguém vai aceitar você, ou você não vai dar certo. São apenas mentiras.  Desperte para oque Deus está fazendo na sua vida!

Fique com oque a Bíblia diz a seu respeito:

Você é Filho de Deus.
Você está assentado nos lugares espirituais junto com Cristo Jesus.
Você é mais do que vencedor.

Talvez você não esteja vendo oque Deus está fazendo na sua vida agora. Você pode estar passando momentos terríveis, insuportáveis emocionalmente, espiritualmente e fisicamente, mas lance tuas redes para a direita! Ou em outras palavras, lance tuas expectativas para o Senhor. Há futuro! Talvez circunstâncias ou pessoas estejam bloqueando sua visão; lance suas redes assim mesmo! Não fique paralisado! Ande, marche, corra! A sua vitória está concretizada no mundo espiritual. É só uma questão de tempo para ela se materializar, então cante e comemore!

"Por isso diz: Desperta, tu que dormes, e levanta-te dentre os mortos, e Cristo te esclarecerá." -  Efésios 5:14

Desperte!
O tempo de cantar chega!


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